Meio ambiente: um passinho à frente, por favor!

Aleluia Heringer

A comunidade científica recebeu, no início de maio (2013), com grande apreensão, a notícia vinda do observatório de Mauna Loa, no Havaí, de que a concentração de CO2 na atmosfera superou, pela primeira vez, a marca de 400 partes por milhão. Como de costume, as análises vindas da ONU, ou do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mantiveram o tom profético de que o Planeta está em uma zona de perigo; e que o mundo tem que acordar e perceber o que isto significa para a segurança dos seres humanos.

Em outra linha de análise, Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, propôs em um de seus artigos, uma “ética a partir do aquecimento global”, isto também, logo após a notícia do observatório do Havaí. A questão posta por Boff, diante esta situação é: “como fundar um discurso ético minimamente consistente que valha para todos”? Segundo ele, “não é possível frear a roda, mas diminuir-lhe a velocidade” e que precisamos “viver radicalmente o reduzir, reutilizar, reciclar e rearborizar”.

Sentimo-nos aliviados quando alguém utiliza expressões abrangentes, como, “comunidade internacional” ou “contrato ético”. Elas nos confortam, pois não nomeiam ninguém, não especificam ações e condutas que precisam ser revistas. Então, se não é comigo, vou tocar a minha vida, ainda mais como um ser insignificante no meio de outros 7 bilhões de habitantes do planeta, nada que eu faça terá relevância.

Falta objetividade nesses discursos que são evasivos quando se tratar de esclarecer e responder: o que necessariamente precisa ser feito? Quem deverá fazer? O quê? Quando? Como? O que é insustentável que precisa ser desencorajado? O desmatamento é para sustentar qual tipo de atividade? E a produção de lixo; o consumo de água; as emissões de CO2 ou de metano estão atreladas a quais atividades econômicas e pessoais?

Há algo grandioso demais e desproporcional nesta luta, algo que me lembra da história do invencível gigante Golias e o frágil Davi que, com sua funda (estilingue) e uma pedra, ou seja, algo bem artesanal, atingiu o grande gigante.

O discurso ambiental perdeu seu poder de impacto e o da sustentabilidade virou lugar-comum. Precisamos dar um passo à frente e apresentar uma abordagem à altura dos problemas que nós e, principalmente, as futuras gerações iremos enfrentar.

Que ação poderá valer para todos e que tenha o impacto da funda e da pedra? Sugiro uma proposta que uma criança ou um idoso, o letrado ou o analfabeto irá entender. Temos em nossas mãos uma arma poderosa e que poderá “frear a roda”, ou, frear o sistema produtivo responsável por: 39% da produção de lixo do mundo; pela poluição dos rios e lençóis freáticos; pela erosão dos solos; pela emissão de 18% do CO2, 37% do gás metano e 65% de óxido nitroso, liberados na atmosfera; por 70% do desmatamento da Amazônia; pelo desvio de grãos nobres que deveriam alimentar pessoas famintas ao redor do mundo, e que servem de alimento para “animais de abate”; e se não bastasse tudo isto, pela escravidão e morte cruel de bilhões de animais não humanos por ano. Estamos falando de seres sencientes, sujeitos de uma vida que nossa prepotência transformou em coisa/objeto/ produto.

É possível uma transformação profunda começando unicamente com o nosso garfo, quando abolirmos o consumo de proteínas de origem animal. Esta é uma resposta prática a muitos dos problemas que vivemos hoje e, a meu ver, uma tradução do “viver radicalmente”, proposto por Boff. Um “contrato ético” não poderá ignorar que somos parte de um complexo de sistemas vivos compartilhando com animais não humanos partes de um mesmo ecossistema global. Os princípios da interdependência, da parceria, da ética, dos processos cíclicos, para citar alguns, tornados possíveis pelas conquistas científicas, tecnológicas e culturais precisam orientar nosso modo de viver.

O animal humano, não humano e a “Mãe Terra”, expressão tão cara ao teólogo, precisam ser alvo do mesmo olhar do cuidado. Qualquer projeto que venha dominar os seres a partir de uma espécie privilegiada; que naturalize a escravidão e a crueldade a outras espécies, não é ético e nem justo, e degrada a condição humana.

Aleluia Heringer é professora, doutora em Educação pela UFMG, diretora do Colégio Santo Agostinho em Contagem, vegana e idealizadora da Plataforma Terráqueos

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